Entenda por que o preço do diesel não cai, mesmo com recuo dos combustíveis

Petrobras prevê que preços do diesel devem continuar altos no 2º semestre do ano — Foto: Gabriel Bastos/A7 Press/Estadão Conteúdo

Porto Velho, RO - Os levantamentos semanais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que os postos de combustíveis têm reduzido paulatinamente os preços de gasolina e etanol há mais de um mês. A exceção é o diesel, que permanece quase estável.

A redução do produto desde a semana de 25 de junho foi de apenas 1,9%, o que significa R$ 0,15 o litro em termos nominais. O diesel passou de R$ 7,57 para R$ 7,42 nesse intervalo.

Enquanto isso, a gasolina passou de R$ 7,39 para R$ 5,74, um corte de 22,3%. O etanol enfileira quedas há 13 semanas e foi de R$ 5,53 a R$ 4,21 o litro, também um recuo de 23,8%.


E mais uma surpresa confundiu o consumidor: a Petrobras anunciou duas reduções do preço da gasolina para as refinarias neste mês. Nas duas ocasiões, o diesel ficou de fora dos reajustes.

Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o diesel tem particularidades em relação aos demais e que impedem uma redução de preços — tanto no país como fora. São fatores que vão do hábito de consumo do combustível às complicações de abastecimento por conta da guerra na Ucrânia.

Petrobras

Inicialmente, o consumidor esperava algum alívio dos preços do diesel no país conforme os valores de mercado gerassem menos pressão na política de preços da Petrobras.

O preço de paridade de importação (PPI) da estatal é a base dos preços da gasolina e diesel nas refinarias. O PPI é orientado pelas flutuações do preço do barril de petróleo no mercado internacional e pelo câmbio.

Mas há o valor do próprio diesel no mercado internacional e que subiu quase 55% desde a invasão russa à Ucrânia, no fim de fevereiro. A gasolina também explodiu de preço, mas voltou a patamares mais próximos ao período anterior ao conflito, com alta de 9%. Os dados são do site Oil Price.

Tubos das instalações do gasoduto Nord Stream 1 em Lubmin, na Alemanha — Foto: REUTERS/Hannibal Hanschke

Segundo Pedro Rodrigues, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o fenômeno se dá porque houve uma escassez de diesel no mercado internacional com o acirramento do conflito entre Rússia e Ucrânia.

No episódio mais recente, os russos limitaram ainda mais o fornecimento de gás natural para a Europa, por meio do gasoduto Nord Stream. O gás natural é uma importante fonte de energia para casas e para indústrias europeias e cerca de 40% do gás consumido na União Europeia vem da Rússia. O substituto natural, de curto prazo, é o diesel.

“O receio com a Rússia faz a Europa estocar diesel, o que eleva o preço em todo o mundo. Isso fez a cotação do diesel descolar do barril de petróleo e ter grande volatilidade”, diz Rodrigues.

É essa variação dos preços que faz a Petrobras “jogar parada” com o diesel. O vaivém da cotação no mercado internacional pode fazer uma redução precipitada se transformar em uma alta depois de pouco tempo.

“O volume consumido no Brasil é muito grande, então a empresa não pode correr um risco de desabastecimento”, afirma o especialista, que acredita que a empresa está certa em deixar uma “margem de segurança” para o combustível.

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Consumo de diesel

Na sexta-feira (29), a própria Petrobras indicou que são altas as chances de o preço do diesel seguir elevado por causa de um “descasamento” entre oferta e demanda.

Pelo lado da demanda, a tendência é de um aumento da procura pelo combustível nos próximos meses por conta do inverno no hemisfério norte. Já no Brasil, a busca pelo diesel também deve ser maior com o escoamento da safra de grãos, feito majoritariamente por transporte rodoviário.

Já pela oferta, a Petrobras espera efeitos da temporada de furacão nos Estados Unidos, o que pode comprometer a produção e incentivar aumentos de estoque de diesel. Mas especialistas ouvidos pelo g1 também colocam na conta uma possível extensão nos cortes no fornecimento de energia pela Rússia em momento decisivo.

O economista Cláudio Frischtak, sócio-fundador da consultoria Inter B, lembra que a situação pode se complicar porque o consumo de diesel é de difícil substituição. Na Europa, por exemplo, além do transporte de carga, há dependência de diesel para abastecimento dos carros de passeio e, eventualmente, para o aquecimento de casas.

“Diesel tem uma demanda muito mais inelástica, enquanto as refinarias estão com problemas de aumento de produção. O Brasil importa cerca de 25% do diesel e acaba sofrendo bastante com o mercado internacional”, diz Frischtak.

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E a queda do ICMS?

Antes de esperar um alívio nos preços de combustíveis no mercado internacional, o governo de Jair Bolsonaro preparou medidas para baixá-los na marra.

Em junho, o presidente sancionou um projeto visando bater diretamente no preço de combustíveis, que limita o ICMS sobre itens como diesel, gasolina, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo a uma faixa que não deveria superar de 17% a 18%, dependendo da localidade.

No caso da gasolina, antes da limitação, a alíquota em alguns estados superava 30%, de acordo com a Fecombustíveis. Mas o imposto que incidiu no diesel sempre foi mais baixo e boa parte dos estados já tinha uma cobrança inferior ao novo limite estabelecido pelo projeto.

Sem efeito do corte de imposto, os únicos reforços que sobraram aos usuários do diesel foram os auxílios para categorias, viabilizados pela PEC Kamikaze. Dentre as medidas, há um “voucher” mensal de R$ 1 mil para apoio aos caminhoneiros.

“O impacto [da redução do ICMS] acabou sendo maior na gasolina. Com o custo do diesel aumentando, até o auxílio para caminhoneiros acaba sendo inócuo”, afirma Carla Beni, economista e professora da FGV.

Por Raphael Martins e Luiz Guilherme Gerbelli
Fonte: G1


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